MENOS TEMPO QUE LUGAR, curadoria de Alfons Hug

MENOS TEMPO QUE LUGAR, curadoria de Alfons Hug


A exposição investiga o bicentenário da independência da América Hispânica, através de vídeoinstalações de 10 artistas latino-americanos e europeus, com curadoria geral de Alfons Hug. A mostra teve sua estréia em novembro de 2009, em Quito, no Equador, mas ainda é inédita no Brasil

 

A exposição é inspirada num misterioso poema de Mario Benedetti (“Há menos tempo que lugar / não obstante há lugares que duram um minuto e para certo tempo não há lugar”) e investiga o bicentenário da independência da América Hispânica celebrado em 2010 na Argentina, no Chile, na Colômbia e no México. 

O projeto, com curadoria geral de Alfons Hug, apresenta vídeoinstalações de dez artistas latino-americanos e europeus que mostram as contradições da realidade, através de um tratamento estético dos 200 anos da independência da América Latina. São eles Alexander Apóstol (Venezuela), Bjørn Melhus (Noruega/Alemanha), Christine de la Garenne (Alemanha), Claudia Aravena Abughosh (Chile), Fernando Gutiérrez (Peru), Leticia El Halli Obeid (Argentina), Mariana Vassileva (Bulgária/Alemanha), Martín Sastre (Uruguai), Narda Alvarado (Bolívia) e Neville D´Almeida (Brasil). A curadoria da obra de Neville D’Almeida é de Alberto Saraiva.

Segundo Alfons Hug, por um lado é como um mapa ao seguir uma dramaturgia geográfica e permitir que diferentes países do continente desfilem diante das pessoas. Por outro, é um raio de tempo que explora a história ano a ano. “Menos Tempo que Lugar: por acaso isto significa que temos menos tempo que espaço, que o tempo nos escapa das mãos enquanto seguimos buscando um lugar para nos estabelecer, que ao final temos onde permanecer, porém o tempo já se esgotou?”

A mostra também pode ser lida diante do pano de fundo das dramáticas transformações que a América do Sul tem sofrido nas últimas décadas. “Da noite para o dia, capitais bucólicas converteram-se em megalópoles de crescimento incontrolável, rodeadas de favelas. Paisagens intocadas transformaram-se em devastada terra de ninguém. Os artistas também mostram a vitalidade inquebrantável da população multiétnica do continente, sua espiritualidade e criatividade. Ocupam posições de escuta abandonadas há muito tempo e registram o tremor subconsciente que se anuncia. Eles exploraram a América do Sul em todas as direções. Visitaram tranquilas cidades do interior e metrópoles pujantes, locais ligados ao passado e modernas cidades que apagaram até os últimos vestígios da história. Em La Paz, se perguntaram se a autodeterminação dos povos indígenas poderia dar um novo rumo à história; e, em Buenos Aires, se os movimentos sociais podem ser uma resposta à globalização”.

O peruano Fernando Gutiérrez, por exemplo, convidou German Grau, descendente do lendário Almirante peruano Miguel María Grau Seminário a percorrer quatro mil quilômetros, de Lima até o sul do Chile, a bordo de uma kombi VW. Durante a jornada, a trupe viajante visitou o navio de guerra Huáscar, ancorado em Talcahuano, no Chile, e organizou performances nos vilarejos costeiros.

Em seu vídeo “La Família”, Mariana Vassileva reúne várias gerações de forma harmoniosa. A despreocupada leveza do pitoresco álbum de família, que todo pai latino americano tem em alta consideração, contrasta com a violência e os conflitos internos de suas sociedades.

A boliviana Narda Alvarado em seu vídeo “Baile de Idéias” está deitada na cama, sonhando e elaborando mentalmente uma coreografia que integra objetos do cotidiano em um espetáculo de dança imaginário. Ao longo do vídeo, vai inventando tantos acessórios em seu entorno profano que faz desfilar perante nossos olhos um verdadeiro baile de máscaras ou até mesmo o Carnaval de Oruro.

Leticia El Halli Obeid traz a história de volta a uma realidade pouco espetacular e, viajando num trem suburbano em Buenos Aires, transcreve a mão a “Carta da Jamaica” enquanto, pela janela, vê-se passar a deprimente paisagem suburbana. Um ato de escrita arcaica em um local que não admite muita poesia. Com seu manuscrito, a artista parece querer certificar-se de cada palavra escrita por Simón Bolívar. Em sua performance, Obeid compara a promessa histórica com a situação atual e, em vista do abismo que surge, questiona criticamente a legitimidade das festividades em torno do bicentenário.

O venezuelano Alexander Apóstol organiza, nos bairros pobres de Caracas, a leitura da “Carta da Jamaica” em inglês, a língua em que Bolívar escreveu seu texto original. Como os encarregados desta leitura não dominam esta língua, resulta um gaguejo incompreensível cujo efeito é tão mais grotesco quanto mais cresce o entusiasmo dos aficionados atores. O messianismo político, com suas eternas promessas e seu pathos patético, é aqui levado ao absurdo com muito sarcasmo.

No vídeo “Glória ao Bravo Povo” da artista alemã Christine de la Garenne, um ator anônimo se acomoda em uma rede, às vezes relaxado, às vezes em movimentos espasmódicos como se estivesse agonizando, sempre acompanhado de fragmentos do hino nacional venezuelano e de trinados de papagaios num cenário caribenho.

Bjørn Melhus se atira no tumulto da luta em seu trabalho “Hecho en México”. Imitando um assistente de xerife montado em seu cavalo, inspirado nos tradicionais Charros (Cowboys) e armado até os dentes, tenta impor a ordem em um país cada vez mais militarizado. A polícia comum e o exército oficial se veem confrontados com grupos paramilitares, milícias e seguranças particulares de todos os tipos, onde os limites entre cada um desses grupos estão cada vez mais permeáveis.

O uruguaio Martín Sastre, um mestre da reinterpretação da cultura pop global e da política mundial, encontrou na Espanha um sósia do novo presidente norte-americano. O falso Barack Obama dança diante do Museu Rainha Sofia, diverte-se na quermesse e passeia por um parque temático. Por um precioso momento, Sastre suspende a lógica do cotidiano oferecendo-nos uma versão cover da realidade.

O brasileiro Neville D’ Almeida ficou surpreso com o Amazonas. Documentou uma comunidade indígena de 700 habitantes na aldeia Caiapó Ukre, localizada no interior do Pará, no Brasil, mostrando a sua vida: rituais, trajes, danças e costumes. Os cantos tribais acompanham a apresentação deste trabalho.

Um tocante pedaço de mar azul repleto de poesia da chilena Claudia Aravena Abughosh fecha o círculo das obras do bicentenário. Do legendário porto de Valparaíso, com seus terminais de contêineres e estaleiros, inicia-se uma viagem mar adentro, um mar que separou a América do resto do mundo durante longos séculos e acabou trazendo as caravelas dos conquistadores.

 Há lugares que apenas duram um instante – são aqueles momentos singulares que somente a arte pode captar. E, para certos tempos, diz Mario Benedetti, não há lugar. Quiçá este paradoxo possa aplicar-se ao presente, que comprime o tempo em forma extrema sem oferecer-lhe um lar ideal em parte alguma. Parece que só a arte é capaz de situar o tempo e de brindar-lhe refúgio”, reflete Alfons Hug.

Leia o texto curatorial de Alfons Hug no link artigos deste site.

Esta mostra é uma realização do  Goethe-Institut e Oi Futuro (Rio de Janeiro), Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre

MENOS TEMPO QUE LUGAR, curadoria de Alfons Hug
Abertura: 10 de fevereiro de 2010, às 19h.
Exposição: 11 fevereio a 21 de março de 2010.
Horários:terças-feiras a domingos das 9h às 21h.
Onde:Usina do Gasômetro - Av. Presidente João Goulart, 551 - Porto Alegre - RS



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