NAS ENTRELINHAS DO DESENHO

NAS ENTRELINHAS DO DESENHO

Por Ana Zavadil
A ação artística dos integrantes desta mostra desenvolve-se no campo do desenho. Cada um, dono de uma singularidade em seu processo criativo, apresenta uma trajetória dedicada a esta técnica... A ação artística dos integrantes desta mostra desenvolve-se no campo do desenho. Cada um, dono de uma singularidade em seu processo criativo, apresenta uma trajetória dedicada a esta técnica. A expressividade de suas obras é construída pelo intenso embate na busca de experimentações de materiais e de suportes numa dedicação extrema dentro do ateliê. A figura humana é o ponto comum na origem de seus trabalhos e, a partir dela, cada um traça o seu caminho nas investidas sobre o papel. A linha é soberana como estrutura dos desenhos e, em suas entrelinhas nos é dado a ver significados outros que não sejam só o da técnica.

As linhas fortemente traçadas, misturadas a óxidos de ferro e pigmentos, nos trabalhos de Antônio Augusto Bueno, é explorada até o limite da saturação onde a sobreposição cria camadas de matéria. O instrumento de maior peso em sua obra: a linha revela gestos repetitivos criando formas ou solta se liberta estendendo-se em todas as direções. O olhar a acompanha desvendando seus mistérios, de vez em quando interrompido por uma mancha ou por um feixe de linhas para logo retomar outra direção. O percurso deste artista inicia com o desenho da cabeça humana transformando-se em outras figuras ou abstraindo-se completamente até chegar na linha e na mancha.

Flávio Morsch cria personagens imaginários, através dos grafismos acolhidos pelo papel, numa linha fluída, solta. O gesto é incisivo e não permite erros em seus desenhos. Não há como esconder uma linha em meio a outras como nos desenhos de Antônio. Os traços inscritos são limpos, construídos com rigor formal e transgridem o papel uma única vez. A matéria que compõe a linha, a parte concreta do desenho contrapõe-se em relação à imagem que remete ao intocável, ao lúdico e ao indizível.

As linhas decorrentes de pequenos gestos tornam-se manchas, delineando as formas que se salientam no branco do papel nos desenhos de Sérgio Wischral. As mãos por ele representadas são fielmente reproduzidas com gestos suaves que acumulam camadas de matéria. Os seus desenhos desdobram-se em fatias que o olho teima em juntar, em refazer o todo a partir do fragmento. A fotografia digital é usada como principio de seu processo de trabalho, onde a imagem é modificada e depois impressa dando o ponto de partida para o uso do grafite. Os desenhos são impecáveis, o rigor técnico revela linhas de densidades diferentes às dos outros dois artistas. Sérgio utiliza o grafite num diálogo sutil e constante com o suporte, criando desenhos sem linhas demarcatórias.

A série apresentada por Umbelina Barreto foi desenvolvida com materiais químicos fotográficos e nanquins sobre papel fotográfico, mais uma combinação de materiais, dentre outras, em seu universo poético calcado nas experimentações. Os marrons e pretos criam nuances e variações no ritmo de suas figuras femininas, inseridas numa espacialidade onde a linha e a mancha andam juntas e o gesto intenso busca a forma ideal onde a linha acontece e é desfeita em sobreposições de matérias sobre o suporte.

Obstinados em suas experimentações, estes artistas constroem suas poéticas direcionando-nos para um aprofundamento no que diz respeito às questões da linguagem do desenho na arte atual. O desenho está diretamente ligado à construção do pensamento e por isso mesmo ultrapassa os limites dos seus suportes, para mais além do que qualquer fisicalidade possa limitar. Nas entrelinhas do desenho estão contidas as buscas destes quatro artistas, as suas experiências, as suas motivações, os seus gestos, o seu pensamento poético, o impalpável.


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