A PASSAGEM |
| Por Ana Zavadil | ||||||
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Os trabalhos que constituem esta exposição nos conduzem a reflexões sobre a nossa existência e a nossa passagem pela vida. O diálogo do que está lançado nos trabalhos ratificam o quanto somos paradoxa...
Os trabalhos que constituem esta exposição nos conduzem a reflexões sobre a nossa existência e a nossa passagem pela vida. O diálogo do que está lançado nos trabalhos ratificam o quanto somos paradoxais: traços de vida evocadores de imagens de figuras femininas, da boneca, da cuia, da flor e ossos e esqueletos, indicadores de finitude, da morte. O perturbador contraste das imagens coexistentes coloca-nos diante do eterno dilema da vida: a efemeridade.
O artista escolhe elementos que lhe são caros para representar, os quais resgatam sentimentos íntimos e histórias de família, todos relacionados com a figura da morte, indicando o tempo finito de que dispomos. O olhar menos apaziguado necessita um longo percurso para decifrar todos os elementos, às vezes, em espaços ou planos subdivididos e acompanhados de palavras indecifráveis. O contexto gera uma sensação de inquietude e um estado emocional latente de conflito e de estranhamento. Nos últimos trabalhos desta série Sérgio Garcia faz a sua leitura de vida. Projeta na pelve a sua metáfora como um lugar de passagem, ponto de ligação e/ou transição, um lugar que acolhe, que abriga o dentro e o fora, numa condição de devir e de impermanência. A potência expressiva das imagens transforma-se quando o artista elege um só elemento para representar e dar o primeiro passo para romper com a fase de pinturas até então desenvolvida. A disjunção dos elementos transfigura-se em uma nova abordagem: a cor é menos intensa e o traço é mais desprendido. Os campos de cor diluem-se, as linhas tentam manter o controle da forma, porém um contorno mais rarefeito mostra sinais evidentes de liberdade. A fluidez do gesto indica um resgate diante das suas inquietações e revela uma pintura mais concisa. A aparência da figura torna-se menos provocativa e o procedimento plástico do artista revela-se rico em experimentações de materiais e suportes, tanto na pintura quanto no desenho. A passagem, portanto, apresenta o visível: a imagem do corpo em mutação que representa a vida e o invisível que se manifesta numa transformação do próprio artista na busca do crescimento e do conhecimento no campo artístico, reafirmando a sua preocupação constante entre produção e reflexão.
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