BORBOLETAS

BORBOLETAS

Por Ana Zavadil
A fotografia congela o instante do movimento das asas da borboleta. A imagem capturada registra um tempo que se transformará em outros tempos e uma cena de indizível beleza no movimento da bailarina... A fotografia congela o instante do movimento das asas da borboleta. A imagem capturada registra um tempo que se transformará em outros tempos e uma cena de indizível beleza no movimento da bailarina com panos que se movem em vestes de asas produzem rítmo e leveza. Estes movimentos e o tempo de cada um irão para dentro da pintura de Liane Borghetti Krenzinger da mesma maneira que na dança: rico em sutilezas.

A intenção plástica da artista começa a partir do registro de imagens cuja importância e significados lhes são de ordem pessoal. O ballet faz parte de sua vida e alimenta o seu fazer no campo das artes. Suas filhas ainda são bailarinas e a proximidade com a dança gerou a passagem das suas vivências para o campo pictórico. Por hora, a sua conduta criativa espelha-se no ballet indicando de onde vem a inspiração para a criação, contudo a sua invenção artística demonstra qualidades inequívocas de erudição aliada a um trabalho de apuro técnico seguro por sua intensa dedicação.

A composição de cada obra revela a diversidade de materiais utilizados: tinta acrílica, pva, betume, folha de ouro, papéis de seda estampados, nanquin, grafite e carvão. O grau elevado de habilidade no uso destes materiais sustenta a dinâmica para a construção de cada tela, pois cada uma delas, no transcurso de uma execução elaborada confere ao todo uma unidade plástica de minuciosas combinações. A harmonia do conjunto dos trabalhos se dá pela proximidade dos recursos utilizados: o tema escolhido afinado com os materiais. O equilíbrio se dá exatamente na relação das formas e no modo como são estruturadas.

Liane atua sobre a matéria de modo a torná-la sua cúmplice no desenvolvimento das formas. As camadas transparentes sobrepõem-se umas às outras, criando vários tempos dentro da pintura. Do gesto inicial traçado na tela ao acúmulo das camadas surgem as texturas, ora mais densas quando são utilizadas as folhas de ouro ou de papel de seda, ora mais suaves quando formadas pelo betume e pva. Todo o conjunto é criado através de sobreposições. As camadas deixam emergir as sutilezas das matérias em estratégias de manchas que mostram as estampas do papel como desenhos em grafite.

A sobreposição de linhas transluzidas marca vestígios do passado e dão lugar a novos ensaios quando a forma retorna revigorada em outro contexto. Os ocres, marrons e brancos entremeiam escalas de cor promovidas pelas transparências e, apesar da densa matéria construída, a sensação de leveza das formas é incontestável. Assim, na busca desta leveza e graça, as imagens são criadas em movimentos inéditos da forma, tanto pelo deslocamento no espaço, como pela inventiva sensível do posicionamento das figuras, numa pintura construída de forma laboriosa, ou seja, esfregada, raspada, diluída e sobreposta.

No processo criativo, a artista estabelece um ponto de partida ao passar uma imagem do real para a tela, onde o crescimento da pintura ocorre pelos fatos planejados aliados ao imprevisto. O processo assinala imagens que são constantemente alteradas; emergem e escondem-se por entre as camadas de tinta. Segundo Bernard Paquet, falando sobre o processo artístico:

“ A instauração da obra deve ser compreendida, então, não sob o ângulo do projeto, mas antes, na dinâmica do trajeto. Este último conceito, enunciado por Souriau, ilustra melhor os desvios dos de(sígnios)senhos originais provocados pela influência das imagens e dos materiais, no decorrer do trabalho.” ( PAQUET, 2004,p.70).

A série de pinturas de Liane Borghetti Krenzinger prima pela sensibilidade dos rumos estabelecidos pela sua poiética. Os materiais usados para construir as formas nos cativam na busca de suas identidades. A linha que se sobrepõe à pintura tece contrastes e semelhanças nas figuras em movimentos. A borboleta presa em seu casulo liberta-se através da linha e da mancha em composições sobre a tela. A visão das sapatilhas cumpre um duplo sentido de sua aparição: ao mesmo tempo em que denota estabilidade ao fixar-se ao chão, impulsiona o vôo da borboleta quando se projeta no ar.

A arte contemporânea abarca uma pluralidade de linguagens onde todo o diálogo é possível. Um tema tradicional da pintura é revisto aqui e metamorfoseado pelas mãos e a sensibilidade da artista em paisagens refinadas, quer do ponto de vista da composição, quer sob o aspecto do desenho ou da pintura, onde a qualidade inerente das técnicas toma roupagens novas e significativas transformando o nosso olhar.

Notas

Ana Zavadil. Graduada em História, Teoria e Crítica de Arte.

Referências

PAQUET, Bernard. A heterogeneidade e a instauração da pintura. Porto Alegre: Porto Arte. Revista de Artes Visuais, v. 13, n. 21, Nov./2004, p. 69-76.




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