UM DIA ENTRE ABRIL E JUNHO |
| Por Ana Zavadil | ||||||
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O tempo é como um rio que corre do passado para o futuro. Não sabemos exatamente onde ele habita ou, se na verdade, somos nós que o habitamos. Quem quer que passe, seja o tempo ou o ser, em sua trajetória deixa as marcas desta passagem: a ausência e a presença são construídas por lembranças e/ou momentos carregados de memórias.
O tempo é como um rio que corre do passado para o futuro. Não sabemos exatamente onde ele habita ou, se na verdade, somos nós que o habitamos. Quem quer que passe, seja o tempo ou o ser, em sua trajetória deixa as marcas desta passagem: a ausência e a presença são construídas por lembranças e/ou momentos carregados de memórias.
Um dia entre abril e junho significa uma fatia desse tempo e é neste tempo em que Ana Flores penetra mostrando o resultado de suas pesquisas ocorridas entre o outono de 2007 e o outono de 2009, onde a investigação sobre seres e objetos que habitam os espaços internos e externos das casas transformou-se em peças requintadas, belas e úteis. A exposição nos abraça, enriquecendo-nos com questões sobre a vida, a permanência, a passagem, a matéria e seus significados. A artista parte de questões pertinentes ao conceito de casa e de três sentidos que a palavra acarreta: morada, lar e corpo. Como casa-morada, oferece proteção, como abrigo físico que é; como casa-lar anuncia-se como um lugar onde a vida é vivida como espaço íntimo e território pessoal, nela estão os objetos, o mobiliário e as heranças que nos salvam do conceito de “não-lugares” de Marc Augé; como casa-corpo acolhe vivências, onde o tempo de permanência é regido pela finitude e nos permite aqui estarmos até que esta chegue. Painéis, flores, casas e azulejos compõem parte do trabalho de Ana em técnicas diversificadas como a terracota em queima raku a 950°; gatos e passarinhos, em terracota com óxidos a 1.000°; grés, acima de 1.240° em peças utilitárias portadoras de design refinado. O seu trabalho desenvolve-se entre duas técnicas: a cerâmica e a pintura. Dedica-se com mais vigor à primeira, considerando que a pintura preserva os estudos da cerâmica. Os motivos que reconhecemos nas telas fazem parte da pesquisa histórica da azulejaria das casas do final do século XIX, que a artista pesquisou intensamente. Este vai-e-vem entre a cerâmica e a pintura demonstra a sua inquietude, o seu desejo de ir adiante em busca de novos conhecimentos e prazeres e esta sintonia é fundamental no seu processo criativo. O barro – este elemento de características simples – encontrado na natureza é matéria de sedução para a artista e a sua proximidade os torna indissociáveis. O desafio de sua produção reside nas relações entre a matéria que permite um leque de possibilidades em experimentações e, ao mesmo tempo, no respeito aos limites do material e/ou da técnica, somadas ao acaso, já que o barro tem identidade própria. A trajetória apurada e a dedicação em suas pesquisas estão presentes nesta volumosa coleção de trabalhos, numa busca incansável de estéticas para o barro e, afinação no sentido dado a cada elemento do conjunto, sempre alerta a escolhas de menor impacto ambiental. Ao percorrermos o espaço expositivo, nos inserimos no mundo da artista: o jardim, a casa e os objetos. As partes compõem o todo e estão intrinsecamente ligadas à existência do ser humano. Podemos extrair desse encontro as essências ali representadas e eternizadas através da matéria. Ana representa a vida, as emoções e os sentimentos através da cerâmica. Durante o percurso percebemos as pulsações de seu fazer e, como um inventário, nos é dado a ver o que lhe toca profundamente. As sutilezas e os rebatimentos sugeridos pela exposição realizaram-se plenamente através de desdobramentos da proposta de Ana Flores. As relações entre os três principais focos da exposição narram uma história cheia de encantos e detalhes. A leitura desta exposição contribui de maneira especial para a constatação da cerâmica como uma linguagem plástica de real importância dentro da arte contemporânea e nos é dada através da beleza, da variedade e da singularidade das peças apresentadas. Ana Zavadil- curadora Mestranda em Arte e Cultura pela UFSM.
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