DUALIDADES

DUALIDADES

Por Ana Zavadil
As obras desta exposição aparecem aos pares ou em conjuntos e revelam a troca e/ou confronto entre a realidade e o imaginário. Os artistas Adriana Daccache, Antônio Augusto Bueno, Kátia Costa e Rodrigo Núñez criam armadilhas, em sutis contrapontos, para instigar a nossa reflexão. O dualismo expressa o paradoxo entre o ser e o não ser de maneira concomitante. A estética saída do cotidiano na forma de apropriações constitui instalações que dialogam com os desenhos e as esculturas formando um conjunto de obras idealizado para sugerir dualidades. Dualidades

As obras desta exposição aparecem aos pares ou em conjuntos e revelam a troca e/ou confronto entre a realidade e o imaginário. Os artistas Adriana Daccache, Antônio Augusto Bueno, Kátia Costa e Rodrigo Núñez criam armadilhas, em sutis contrapontos, para instigar a nossa reflexão. O dualismo expressa o paradoxo entre o ser e o não ser de maneira concomitante. A estética saída do cotidiano na forma de apropriações constitui instalações que dialogam com os desenhos e as esculturas formando um conjunto de obras idealizado para sugerir dualidades.
O primeiro autor a usar o termo dualismo foi Thomas Hayde (1636-1703), em 1700, referindo-se a doutrina religiosa que admitia o bem e o mal: pensamento filosófico que divide a condição humana em princípios antagônicos e dessemelhantes. Esta exposição pretende explorar estes princípios.
Os trabalhos apontam questões significativas da arte contemporânea como o tempo, a escolha, a dualidade. Diariamente nos deparamos com estes conceitos, pois vivemos em um tempo infinito e ao mesmo tempo limitado. As dualidades nos interpelam para uma escolha. Escolher implica em perda.
As relações entre os trabalhos propostos onde o duplo sentido se apresenta nas obras estão intrinsecamente ligados aos processos criativos. O híbrido passa a coexistir não só nas obras e materiais como também nas vivências e experiências dos artistas. Como dizem: KALINA e KOVARDROFF:

Feito de pó e consciência, o homem se acha dividido entre sua vinculação ao transitório e sua inscrição na eternidade. Graças à consciência pode estar além da imediatez do devir, devido a sua carnalidade não pode senão permanecer imerso nela. Híbrido em sua estrutura ontológica, o será também em seu comportamento, e toda a sua obra, quer dizer, toda a sua práxis, oscilará entre a profundidade da lucidez e a cegueira da sua impulsividade. (1989, p.107)


Quatro artistas que expressam a sua arte em meios diversos: a cerâmica, o desenho, a escultura, os objetos e as instalações. Em comum eles perseguem a busca do aprimoramento técnico e de novas práticas instauradoras para as suas obras onde a hibridização contamina as linguagens, trazendo o diferente e o novo, destacando-os no cenário artístico contemporâneo.
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Adriana Dacacche e Rodrigo Núñez apresentam o trabalho “A Caixa dos Pequenos Problemas” e “Caixa das Pequenas Soluções”. Eles realizam um inventário de tudo o que lhes é problemático, ou seja, objetos que não tem mais utilidade ou não possuem um lugar apropriado para acolhê-los: objetos problemas, os deles e os doados por outras pessoas que se acumulam em sacos ou caixas e unidos aumentam o problema ainda mais. As caixas servem para guardá-los e a disposição dos elementos é feita por combinações estéticas, significativas ou de gosto. As caixas são fabricadas em madeiras achadas/e ou doadas no local da exposição.
Antônio Augusto Bueno mostra o trabalho “Cobaias de Deus”: cabeças esculpidas em cera colocadas dentro de vidros e imersas em água. A dualidade configura-se no aspecto da assepsia: material e emocional. Outras esculturas cerâmicas que representam cabeças e pés ressaltam contradições ao apresentarem-se em sentidos opostos: os pés demarcam caminhos no ir e vir e as cabeças evidenciam olhares que não se encontram.
Kátia Costa propõe pequenas instalações que destacam antagonismos como “O que nos une o que nos separa”, obra composta por pequenos vidros usados em laboratórios e dentro abrigam objetos que manifestam a relação de união/separação. As pílulas do sim e do não, como se alguém ao engolir uma delas pudesse tomar a decisão correspondente; a balança que se mantém em equilíbrio por conter em cada prato a mesma quantidade de coisas boas ou ruins escritas em pedaços de papel; dois armários cada um com uma chave dentro em sentidos contrários convidando à escolha; a coleção de ampulhetas onde o espectador é chamado a interagir e a delinear o seu próprio tempo.
O ambiente que a exposição propicia, por meio do diálogo entre as obras e os seus significados, tem o propósito de trazer reflexões sobre as opções que temos diante do que vemos. O que acrescentaríamos na caixa dos pequenos problemas? O que nos une ou nos separa do que queremos ou sentimos? O que significam essas cabeças em vidros dando a idéia de seres incomunicáveis parados no tempo?
A realidade da arte contemporânea mostra o tempo como o grande articulador, as obras desmaterializam-se cada vez mais se impregnando de outros sentidos, como diz Anne Cauquelin: O tempo se torna um ator essencial para o processo. Poder-se-ia objetar que toda obra plástica exige tempo para que o olhar varra sua superfície e tome consciência daquilo que é mostrado... (2008, p.291). E este tempo é oferecido nesta trajetória de observações, cada um poderá tecer as relações com o que vê, pois é exatamente este o intuito da exposição: criar o interesse do espectador às questões propostas pelas obras.

Notas

Ana Zavadil, mestranda em Artes Visuais: Arte e Cultura pela UFSM.

Referências

CAUQUELIN, Anne. Freqüentar os Incorporais. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

KALINA, Eduardo; KOVADROFF, Santiago. O Dualismo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.




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