A CIDADE QUE NÃO VEMOS

A CIDADE QUE NÃO VEMOS

Por Ana Zavadil
A arte sempre teve por vocação abrir na história espaços para novos olhares, produzindo imagens críticas que provoquem um verdadeiro despertar.
Edson Luiz André de Souza

A cidade de Pelotas, lugar onde vive Kelly Wendt, é o sítio que lhe proporciona o surgimento do seu trabalho plástico. A relação com o lugar faz com que a matéria prima de suas fotografias esteja ao seu alcance durante as caminhadas numa conexão entre o corpo, o espaço e o tempo. As imagens captadas são o resultado do olhar diferenciado da artista, pois ela registra elementos não percebidos pelos que fazem os seus trajetos habituais. Reforçando esta situação escolho palavras da artista Daniela Cidade:

"O fotógrafo ao tornar-se um flâneur visual, pode se tornar alguém obsessivo em tentar registrar aquilo que passa despercebido no dia-a-dia. A velocidade e a falta de atenção do espectador para o espaço urbano produz uma descontinuidade na percepção espacial." (2005, p.90)


Em meio a trama urbana, Kelly realiza um inventário das casas abandonadas de Pelotas. As casas cegas e mudas que outrora faziam parte da arquitetura da cidade, hoje nada mais são do que corpos em ruínas e em silêncio guardiões de segredos e histórias dos que lá viveram. Como corpos abandonados ao seu próprio destino, cegos e mudos, com suas portas e janelas lacradas por tijolos ou tapumes, configuram um cenário de estranhamento à cidade, despidos de sua verdadeira razão de ser: a casa-morada. A presença faz-se ausência.

Na condição de escrever sobre o trabalho de Kelly, tento adentrar-me em sua poiética e acompanhar o vir a ser de sua obra. O seu processo criativo dispensa o ateliê - lugar de fabricação de imagens - e captura as que lhe são apropriadas através de seu celular, ou camerafone, como o define. O uso dessa ferramenta eletrônica de fácil manuseio e transporte insere-se na contemporaneidade, onde o tempo veste-se de outros tempos para além do cronológico e onde vários artistas penetram com seus registros.

Kelly conjuga alguns verbos para construir a sua poética: caminhar, registrar, repetir, colecionar, apropriar, dentre outros. Em suas andanças através dos labirintos da cidade, resgata imagens de casas singulares que apresentam em comum transposições de significados; isolados de suas funções tornam-se corpos desprovidos de vida pontuando relações entre o escuro do lado de dentro e o invisível do lado de fora. Poucas vezes o avesso desses corpos é revelado por alguma fresta que deixa entrever as poeiras da alma, os vestígios e as memórias de quem ali habitou. Somos olhados por este passado e por esta perda e somos remetidos às palavras de DIDI-HUBERMANN: “... devemos fechar os olhos para ver quando o ato de ver nos remete, nos abre a um vazio que nos olha...”. (1998, p.31)

A artista destaca construções com a escolha de alguns lugares, promovendo uma ação que consiste em produzir cartões postais e remetê-los aos moradores próximos e a lugares de grande circulação. Depois da ação, Kelly atinge o seu propósito na reação com o possível reconhecimento das imagens e do abandono das casas, tornando-as visíveis e estabelecendo diálogos para o resgate e conservação da memória.

O seu trabalho realizado em duas etapas, com o lançamento de postais e com o mapa adesivado no chão, como uma cartografia, indica lugares/não-lugares, mostrando-nos uma obra rica e experimental em sua pesquisa para a instauração de um espaço de reflexão e não-indiferença.

O tema está proposto e aos observadores de sua poética fica o convite: viajar por este território através de seu processo criativo. Nós contempladores da frágil existência humana, vamos povoar o nosso imaginário com a visão dessas casas e a infinitude que deixam marcas sutis no nosso coração e na nossa memória.

As casas sem alma com sua interioridade encerrada estão no interstício entre a ausência e a presença e na sutura entre a arte e a vida.

Notas

Ana Méri Zavadil Machado, mestranda em Artes Visuais: arte e cultura pela UFSM.

Referências

CIDADE, Daniela. Na sombra da cidade: atenção e cegueira. Revista Porto Arte: Porto Alegre, V.13, N 22, maio 2005.

DIDI-HUBERMANN, Georges. O que vemos o que nos olha. São Paulo: ED. 34, 1998, 264 p. .




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