A PINTURA DE MARINA TERRA

A PINTURA DE MARINA TERRA

Por Ana Zavadil
As telas de Marina Terra nos remetem à pintura figurativa do movimento realista. A exatidão do desenho e a posterior pintura estão no âmbito desta vertente surgida no século XIX, na França como oposição ao Romantismo e corresponde à passagem do belo e do ideal para o real e objetivo. Os preceitos acadêmicos compreendiam obras realizadas em duas etapas: o esboço (ao ar livre) e a pintura cuidadosa no atelier promovidos pela captação da realidade, conferindo-lhes fidelidade à imagem. A artista procede desta forma: desenha a carvão e depois pinta a óleo. No caso de Marina ela abastece-se de um banco de imagens próprias escolhidas previamente. A pintura nos envolve pela delicadeza das pinceladas e manchas, ora apresentando-se de modo suave em cenas bucólicas, ora em cores vibrantes de figuras sensuais ou nuas. A mímesis caracteriza o trabalho da artista, pois a mesma procura a recriação da realidade através da seleção de imagens escolhidas de fatos do cotidiano. Os livros, as revistas, as fotografias e o modelo vivo servem de fonte para a captura destas imagens que compõem o seu trabalho. Esta seleção, no entanto, não é feita de maneira aleatória, a imagem deve tocá-la profundamente e em alguns casos funciona como déjà-vu, pois quando pinta “Menina Moça” reconhece-se através de seu personagem. As imagens tecem relações com a sua memória e o seu inconsciente: o mundo interior passa para a tela na condição de autoconhecimento.
A sua pintura é tecnicamente elaborada com maestria. O virtuosismo advém de uma disciplina que abarca dez horas de trabalho diário, o que lhe confere domínio em relação aos materiais, os quais são escolhidos com rigor de qualidade desde o chassi à tinta utilizada. As linhas, as superfícies, as cores, os volumes e as luzes buscam a harmonia do conjunto e os enquadramentos sutis, escolhidos para serem representados, permitem tocar a sua sensibilidade entre nuances e contrastes.
Podemos constatar uma dualidade em seu fazer: ao mesmo tempo em que se apropria de imagens, fato este que remete à contemporaneidade, o seu modo de pintar evoca as pinturas impressionistas no que diz respeito às tramas coloridas que se mostram em incidências de luminosidade, em pinceladas fragmentadas e justapostas e na ilusão ótica onde o olhar mistura as cores através da retina.
O seu trabalho abre-se em possibilidades. Até agora, a sua pintura nos transmite uma leitura singular do tema, por sua condição explícita e pela absorção frente aos valores tradicionais da pintura. A contemplação do belo e da narrativa figurativa realista, aparentemente vetados na arte atual, ressurge na obra de Marina e lhes são importantes. A representação das imagens, significativa para a artista, trazem consigo suas emoções e seus sentimentos. Os mesmos sentimentos que envolvem o seu fazer e que ela deseja compartilhar.
Marina Terra interpreta a natureza, as cenas pitorescas e os retratos através da pintura e o seu caminho é calcado na predileção pelos motivos que pinta, mantendo-se fiel a eles. Entretanto, o seu desejo de experimentar novas possibilidades está latente, no que se refere a outros tipos de materiais e no sentido de transportar seus personagens para cenários contemporâneos, investindo em renovadas estruturas formais.


Ana Zavadil, é mestranda em Artes Visuais na Universidade Federal de Santa Maria, curadora independente,diretora ultural da Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa.







Comentários (2)
18-04-2010 00:22
 
É ao mesmo tempo naìf, sudamericano, tropicalista e pós-modernidade.eu gosto.
 
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01-11-2009 20:16
 
Realmente, a beleza está nos traços ora suaves, ora sensuais. Belo trabalho!
 
Camila

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