MENOS TEMPO QUE LUGAR |
| Por Alfons Hug | ||||||
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Um misterioso poema de Mario Benedetti inspira um projeto que investiga, com recursos contemporâneos, o bicentenário da independência da América Hispânica que se celebra, em 2010, na Argentina, no Chile, na Colômbia e no México. A exposição que apresentamos é, por um lado, uma cartografia, que obedece a uma dramaturgia geográfica e permite que diferentes países do continente desfilem perante nós. há menos tempo que lugar / não obstante Um misterioso poema de Mario Benedetti inspira um projeto que investiga, com recursos contemporâneos, o bicentenário da independência da América Hispânica que se celebra, em 2010, na Argentina, no Chile, na Colômbia e no México. A exposição que apresentamos é, por um lado, uma cartografia, que obedece a uma dramaturgia geográfica e permite que diferentes países do continente desfilem perante nós. Por outro, é um raio de tempo que explora a história ano a ano. O que surge é um “cronotopo”, ou seja, uma união indissolúvel de tempo e espaço. Aquela “trama singular de espaço e tempo”, que Walter Benjamin denominará mais tarde “aura”, como a manifestação de uma distância, por mais próxima que possa estar. Menos Tempo que Lugar: por acaso isto significa que temos menos tempo que espaço, que o tempo nos escapa das mãos enquanto seguimos buscando um lugar para nos estabelecer, que ao final temos onde permanecer, porém o tempo já se esgotou? Por último, o poema também pode fazer referência a Simón Bolívar, que andava sem descanso entre a Venezuela, a Europa e os países andinos, mas que no fim, repudiado por todos, não teve nem um lugar fixo, nem tempo suficiente para terminar sua obra. Em setembro de 1815, de seu exílio em Kingston, Bolívar, então com 32 anos, escreveu a lendária “Carta da Jamaica” a um amigo inglês, poucos anos após a independência da Venezuela. No seu texto mais importante, o herói da independência esboça um grandioso panorama para a América, que compreende desde os EUA até a Argentina e o Chile. A fulminante análise começa com um levantamento dos movimentos de libertação entre 1810 e 1815 e das razões que haviam levado os “espanhóis americanos” a lutar pela independência. Em seguida, conclama a Europa a apoiar os anseios hispano-americanos. Na terceira parte, Bolívar, que muitos consideram o maior estadista sul-americano de todos os tempos, pronuncia-se sobre as perspectivas futuras de cada uma das repúblicas. E conclui o elegante tratado com um apelo à união dos povos americanos. A “Carta da Jamaica”, por várias razões, apresenta-se como excelente ponto de partida para o bicentenário da independência da América Hispânica. Por um lado, todo o continente, na verdade o mundo todo, se sente envolvido; por outro, as visões de Bolívar permitem uma extensão da Carta até o presente e futuro. Uma leitura contemporânea dos feitos de Bolívar precisa levar em conta atitudes abertas às profundas mudanças sociais e culturais que vêm ocorrendo ultimamente nas Américas. Os artistas também trabalham a inabalável vitalidade da população de várias etnias que vivem no continente, sua espiritualidade e criatividade. Ocupam postos de observação há tempos abandonados e registram os abalos sorrateiros que se fazem anunciar. A mera curiosidade por uma “terra incógnita” presente nos pesquisadores viajantes do século XIX transforma-se, nos trabalhos dos artistas contemporâneos, em uma cartografia das correntes políticas e culturais que varrem o continente. Os artistas que participam da mostra exploraram a América do Sul em todas as direções. Visitaram tranquilas cidades do interior e metrópoles pujantes, locais ligados ao passado e modernas megacidades que apagaram até os últimos vestígios da história. Em La Paz, se perguntaram se a autodeterminação dos povos indígenas poderia dar um novo rumo à história; e, em Buenos Aires, se os movimentos sociais podem ser uma resposta à globalização. Há lugares que apenas duram um instante – são aqueles momentos singulares que somente a arte pode captar. E, para certos tempos, diz Mario Benedetti, não há lugar. Quiçá este paradoxo possa aplicar-se ao presente, que comprime o tempo em forma extrema sem oferecer-lhe um lar ideal em parte alguma. Parece que só a arte é capaz de situar o tempo e de brindar-lhe refúgio.
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